Ferramentas orgânicas de chimpanzés avançam a busca da origem da tecnologia percussiva

Uma equipa internacional liderada por cientistas do Instituto Max Planck e da Universidade de Oxford, que contou com a participação dos investigadores João Marreiros e Susana Carvalho, do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB) da UAlg, desenvolveu novos métodos capazes de detetar danos externos e internos infligidos em ferramentas de madeira percussiva utilizadas por chimpanzés para partir nozes.
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Uma equipa internacional liderada por cientistas do Instituto Max Planck e da Universidade de Oxford, que contou com a participação dos investigadores João Marreiros e Susana Carvalho, do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB) da UAlg, desenvolveu novos métodos capazes de detetar danos externos e internos infligidos em ferramentas de madeira percussiva utilizadas por chimpanzés para partir nozes.

Esta investigação envolveu ferramentas recolhidas durante décadas de investigação de campo na Costa do Marfim, na África Ocidental, onde os chimpanzés selvagens utilizam ramos de madeira para rachar diferentes espécies de nozes. A equipa descobriu que o rachamento de nozes leva a modificações permanentes na madeira. Este dano através do esmagamento produz uma assinatura comportamental que é única e irreversível.

As ferramentas utilizadas para partir objetos duros desempenham um papel importante na evolução do uso de ferramentas na espécie humana. A descoberta de ferramentas utilizadas pelos chimpanzés foi uma peça crítica, no entendimento dos investigadores, de que este comportamento não é exclusivo dos seres humanos. As ferramentas utilizadas para partir objetos duros, como nozes, são consideradas como um importante trampolim para o sucesso evolutivo dos seres humanos. Embora saibamos que muitas espécies diferentes de primatas utilizam ferramentas de madeira, sabemos notavelmente pouco sobre o uso de ferramentas de madeira em antepassados humanos antigos. As ferramentas feitas de madeira decompõem-se frequentemente rapidamente. A mais antiga ferramenta de madeira conhecida utilizada pelos humanos primitivos tem cerca de 400 mil anos. Uma das dificuldades em identificar o uso de ferramentas em tempo mais profundo é a nossa incapacidade de reconhecer ferramentas de madeira de contextos antigos. A investigação aqui descrita utiliza técnicas inovadoras para documentar os padrões que os chimpanzés deixam nas ferramentas de madeira. 

A equipa de investigação reuniu os campos da informática, geografia e primatologia para desenvolver novos métodos de identificação de ferramentas. Os resultados desta investigação mostram que o bater dos ramos de madeira pelos chimpanzés cria um padrão de diagnóstico na superfície das ferramentas, mas também no interior através da modificação da estrutura celular da madeira. Externamente, a superfície das ferramentas de madeira mostra profundas indentações que se acumulam ao longo de vários anos. A equipa de investigação foi capaz de caracterizar estes padrões fazendo modelos tridimensionais da superfície das ferramentas de madeira. Adotando técnicas que os geógrafos normalmente utilizam para identificar vales e cristas, a equipa foi capaz de quantificar a forma destes padrões de danos. A equipa de investigação também utilizou técnicas de visão por computador e de aprendizagem de máquinas de ponta para identificar superfícies danificadas a partir de imagens. Os seus algoritmos de aprendizagem de máquinas podem identificar com precisão ferramentas de chimpanzé a partir de peças de madeira não danificadas, mesmo após modificações substanciais da imagem. Além disso, o martelamento repetido destas ferramentas de madeira quebra as paredes celulares dentro das ferramentas de madeira. Isto deixa um padrão de diagnóstico que é permanente. Mesmo anos após a utilização de peças de madeira como ferramentas, estas estruturas internas fornecem um sinal revelador da sua utilização anterior como ferramentas.

Estas novas técnicas foram utilizadas para identificar com confiança as ferramentas utilizadas pelos chimpanzés, mas, o que é importante, isto tem implicações na descoberta de ferramentas muito antigas. Uma vez que estes sinais de danos duram anos, há uma possibilidade real de que ferramentas semelhantes se localizem em sítios arqueológicos pré-históricos. Os novos métodos desenvolvidos neste estudo tornam possível, pela primeira vez, testar esta hipótese. A equipa está atualmente a explorar sítios arqueológicos antigos para ver se padrões semelhantes podem ser encontrados em tempo profundo.

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